sábado, 2 de junho de 2012

Casal? - Capítulo II .

A noite era de longe o menor de meus problemas. Desci pelo alçapão e desci o corredor, entrei no quarto e tranquei a porta atrás de mim.
Abri a geladeira e constatei o óbvio: além de uma garrafa d'água e um pedaço de pão velho, nada havia. Peguei o conteúdo do refrigerador e sentei no sofá verde, velho e esfarrapado que havia na frente da velha TV de tubo grande. Liguei a TV e tentei procurar alguma coisa interessante para me distrair. Nada. Deixei na reprise de uma antiga novela de um famosa rede de televisão extinta. Comi o pão, empurrei-o com a água. Peguei num sono desgraçado, e só acordei no outro dia de manhã com Freit fazendo alguns grunhidos no braço do sofá.
"Está com fome, menino?"
Ele me olhou com que confirmasse.
"Tá certo, tá certo." Ri, e fui buscar sua comida. "Suba e avise os outros!"
Não havia comida para mim, e isso eu resolveria hoje. Mas meus seis amigos nunca morreriam de fome. Eu não deixaria isso acontecer. Abri o armário e peguei um pacote grande de sementes de girassol. Tranquei a porta e subi pelo alçapão.
Lá estavam cinco deles. Faltava Gio.
"Gio? Gio, onde você está?" Ouvi o barulho das asas passando pelo meu ombro direito e o vi; o maior dos seis.
Meus corvos não dormiam em gaiolas presas. Havia uma gaiola sim, mas metade das grades eu tinha removido, para deixá-los livres. Eles viviam pelos ares da província e voltavam para dormir.
Coloquei punhados de sementes pelos potes de alimentação deles, verifiquei os de água, tudo OK. Vou descer, procurar um trabalho, colocar comida na mesa.
Parei no primeiro andar da pensão, passei no apartamento da dona do prédio.
"Dona Moema! Ô Dona Moema!"
"Fala meu filho, pode falar."
Dona Moema me acolheu quando eu tinha 14 anos, e eu nunca paguei para morar aqui. Em troca, faço para ela alguns serviços domésticos, como carregar coisas, mudar objetos de lugar, pequenos reparos na rede elétrica pirata (conhecidos aqui como gatos) e etc.
"Precisa de alguma coisa?" Perguntei.
"Preciso sim meu filho, entre." Ela disse. Puxou uma cadeira. "Sente-se querido. Precisamos conversar."
"Pode dizer"
"Está rolando na favela um papo de que você foi deixado na Rua 1 por uma viatura ontem. O que foi que aconteceu?"
"Nada de mais" Menti, descaradamente.
"Espero Peter. Não quero ser dura com você, mas não posso abrigar um criminoso."
Ela estava certa. Eu tinha que ser sincero com Dona Moema.
"Então, Dona Moema. Eu não sou o criminoso. Nem a vítima. Sou testemunha, vi acontecer o assassinato da presidente, e os policiais que me trouxeram a Telemack apenas me protegeram do bandido." Eu disse.
"Você sabe que quem mora aqui, em Telemack, não deve se envolver com a polícia." Ela disse, preocupada. 
"Eu sei, Dona Moema, eu sei. Não vai voltar a acontecer." Me levanto e vou olhar pela janela. Vi meus corvos voando pra longe. "Dona Moema, a Senhora tem analgésico?"
"Tenho meu filho, mas você não deve tomar remédio de barriga vazia. Vamos, coma." Apontou para a mesa, onde tinha um bolo e um bule de café.
Me servi, enquanto ela me observava. Dona Moema era uma mulher avantajada, por assim dizer, tinha a pele amorenada de quem já muito trabalhou debaixo de sol, cabelos pretos e lisos, sempre presos em um coque apertado.
Ela me deu o analgésico e um copo de água. Tomei o remédio e nos despedimos.
Desci as escadas e fui pra rua, procurar um emprego. Cumprimentei os vizinhos, brinquei com as crianças.
Saindo de Telemack, avistei uma viatura, entrando na favela. A janela do carona abriu-se, reconheci o rosto. Eram David e Júlio.
"Olá Peter, como passou a noite?" Perguntou David.
"Estou bem, obrigado."
"Entre." Disse Júlio, simplesmente.
Obedeci, entrei no carro e fechei a porta. No banco de trás havia uma pasta de arquivo, com o meu nome na etiqueta.
"O que é isso?" Perguntei.
"Nada, apenas a sua ficha do PPT" Disse David, como se comentasse uma coisa tão banal quanto o clima.
"PPT? O Programa de Proteção a Testemunhas?" Perguntei, estupefato.
"Sim. E você realmente achou que fossemos agentes normais da polícia local?" disse Júlio. "Fomos enviados de Brasília, para vigiar os passos de possíveis envolvidos em ataques a Presidente."
"Mas eu não estou envolvido, você sabe, apenas presenciei o acont..." foi aí que a ficha caiu, testemunha, sou uma testemunha, vou trocar meu nome, me mudar de casa, vão me obrigar a me separar dos corvos. 
"Sim, você vai ser protegido pelo governo agora." disse Júlio.
"Posso ver isso?" perguntei.
"Pode. É sobre você mesmo." disse David.
Abri a pasta, haviam muitas fotos, tiradas de longe, de mim no terraço, cuidando dos corvos, de D. Moema, dos vizinhos... papeladas, meus documentos, uma descrição completa do assassinato da Presidente Cecília, enfim, todas as informações sobre mim. Foi demais pra mim, tive uma crise de asma, Júlio jogou pra mim uma embalagem de Asmix, David me deu uma garrafa d'água. Tomei um, e em pouco tempo estava bem.
"E então, o que vocês vão fazer comigo?" perguntei.
"Você faz perguntas demais." disse Júlio.
"A verdade, é que ainda não pensamos nisso. Digamos que somos sua escolta no momento." Disse David. "Vamos te levar pra escola."
Olhei o relógio, faltavam 15min para as 8h. "Vou chegar no Segundo tempo"
"Não há problema conosco." disse Júlio.
Chegamos no estacionamento da escola, eles desceram, reparei que a minha porta esteve trancada. David a destrancou, quando saí, metade da escola observava o par de policiais que me escoltavam até a sala de aula.
"Vocês podem, por favor, me seguirem e observarem a distancia?"
"Não. Tem muito mais estilo se nós perseguirmos você durante toda a sua rotina. Além do mais, a  Julieta Louro vai reparar em você." disse David.
"Dave, deixe-o" disse Júlio, sério. "Não podemos arriscar, Peter, que você sofra um atentado, pode ser que até mesmo um de seus colegas de classe seja um dos bandidos."
"Ah claro, Marcelo Romão vai tentar me matar. É mais possível que o João Mério, de química me mate." respondi, irritado.
Entrei na secretaria, furioso, com o intuito de pegar minha ordem de entrada, e mesmo lá, eles me perseguiram.
"Bom dia, Sta. Clara." Eu digo para a secretária magra e loura sentada à mesa.
"Bom dia Pe..." Sua fala foi interrompida quando ela levantou os olhos dos papéis e se deparou com David e Júlio."Quem são os seus amigos?"
"Agentes David e Júlio, senhora, estamos aqui para proteger Peter." Respondeu-lhe Júlio, formalmente.
"Protegê-lo do quê?"
"Essa é uma informação confidencial que só será divida com o responsável pela escola. De acordo com meus dados, Luiza Ferrão." Disse David, surpreendentemente sério.
Ela pegou o telefone, digitou uma sequencia de números no painel touch screen do aparelho.
"Luiza? Temos um, digamos, problema de ordem pessoal aqui na secretaria.Existe a possibilidade de você descer?... Ah sim... Sim... Compreendo... Perfeito."
"E aí?" Pergunto , quebrando o silêncio incomodo que ali se plantou.
"Se ela não descer, nós subimos" disse Júlio, firme.
"Não será necessário" disse Clara "Ela descerá" respirou, mantendo o rosto impassível."Se quiserem sentar-se." gesticulou em direção a um sofá de couro negro perto da janela.
"Eu vou pra aula. Clara, você pode me dar uma ordem de entrada?" eu disse.
"Nada disso. Você só sai daqui acompanhado." disse David.
"Não posso permitir que um aluno mate aula." disse Clara, assinando um papel e entregando-me.
"Eu fico, falo com a direção. Você o acompanha." disse Júlio para David.
Saí da sala, sendo seguido por Tico. Acabei por apelidá-los de Tico e Teco, uma maneira mais descontraída de demonstrar minha revolta.
"Você vai me ignorar por quanto tempo?" Ele perguntou.
"O tempo que for necessário Tico." 
"Tico? Júlio é Teco?" riu "Como isso chegou até você? Quando eu era criança, esse desenho já era reprise."
"Eu apenas..." tentei me lembrar. Mas nada passava pela minha cabeça. "deixe."
"OK"
"É aqui." parei na porta de minha classe, no oitavo andar. "É aqui o momento em que nos separ..."
"Óbvio." respirou "Que não."
"Como?" perguntei.
"Não posso deixá-lo sozinho."
"NÃO PRECISO DE UMA BABÁ" gritei, nervoso.
"E eu não serei uma." ele respondeu.
Bufei de ódio, me senti preso, sem nenhuma liberdade.
"Não fique assim. É tudo para a sua proteção." tentou ele, me convencer.
"OK." respondi a contra gosto.
Entrei na sala e fui seguido até a última fileira. O professor não estava na sal. Melhor. Mas, mesmo assim, toda a classe parou suas conversas e me acompanhou com os olhares.
Julieta estava lá, com Marcela e Carla, suas melhores amigas. Seus cabelos acaju pareciam, à luz do Sol, uma cascata de bronze, seus olhos de um azul profundo me fitaram por um instante, e então desviaram-se para David.
Sentei-me. David ficou de pé, no canto da sala. Agora o silêncio fora substituído por um murmúrio incessante.
O professor de química entrou na sala.
"Bom dia classe, desculpem-me o atra..." seus olhos caíram em David.
Uma batida na porta. Carla apareceu na parte de vidro, e então entrou.
"João, sua presença está sendo requisitada na secretaria"
Saíram os dois, sem nenhuma satisfação. A turma ficou alvoroçada, cada um com uma teoria mais louca sobre o assunto do requerimento apressado do professor pela secretaria. Mas um assunto era unanime: Todos pensavam que eu e David estávamos envolvidos.
Baixei a cabeça e fechei os olhos. Ainda podia sentir os olhos em mim. Senti uma mão em meu  ombro e ouvi uma voz tão doce quanto o canto de um canário.
"Peter, o que houve?"
Quando levantei a cabeça, constatei o que já ouvira. O brilho do olhar azul penetrou-me.
"Oh... Sim, estou. E-e-e você?"
"Eu estou sim, obrigada. Mas isso não é importante." Ela puxou uma cadeira e sentou-se ao meu lado, manteve uma de minhas mão entre as dela. Deitou-se em meu ombro e sussurrou-me: "O governo vai te levar"
"O que?" me surpreendi "Eles não podem fazer uma remoção as pressas! E tudo que venho tentando construir?"
"O que você vem tentado construir?" Ela perguntou.
"Uma vida." respondi.
Uma vida? Eu me senti um idiota. Vi uma lágrima cair de seus olhos.
"Sabe Peter, nos conhecemos há vários anos. Porque nunca conversamos?"
"Porque você é da elite, e eu sou só mais um." respondi, sem pensar.
"Assim você me fere."
"É a realidade."
"Realidade. Qual será, a nossa realidade?" ela começou "As vezes acho que prefiro viver uma inverdade do que nessa realidade estúpida em que estamos."
Fiquei sem resposta.
"Um bom exemplo, era meu relacionamento com o filho do chefe de polícia." Ela continuou. "Era, quando acontecia, a minha realidade."
"Vocês terminaram?" perguntei.
"Sim. Na verdade, eu terminei. Era uma farsa, um jogo político entre nossas famílias." ela respirou. "Queriam que ele se tornasse prefeito depois de meu pai."
O governo brasileiro, com o passar dos anos, tornou-se hereditário, e várias famílias com alguma ambição política procuravam casar bem seus filhos. 
"E eu cheguei a acreditar que havia uma mera possibilidade daquele ser de pedra criar algum sentimento para mim." Ela baixou a cabeça e chorou, chorou livremente.
Fiquei estático. Não sabia o que fazer. Abracei-a, e ela retribuiu-me o abraço.
O professor entrou na sala, seguido de Júlio, que tomou seu lugar ao lado de David. Nos soltamos do abraço, que tornou-se constrangedor.
"Classe, estes são David Souza e Júlio Vergara. São policiais designados para a proteção da Sta. Louro e do Sr. Belsoff." disse o professor.
Eu e Julieta os entreolhamos, ambos buscando respostas. O sinal tocou, anunciando o fim da aula.
O professor recolheu seu material e se despediu. Assim que ele saiu, todos os olhares caíram pra cima de nós, e uma chuva de perguntas emboladas, impossíveis de se entender nos bombardeou.
"Deixem-os!" ouvi Júlio, que não obteve sucesso.
"Vocês o ouviram? Deixem o casal em paz!" gritou David. 
A confusão cessou, e todos ficaram com a pergunta que eu e Julieta pomos em voz:
"Casal?" perguntamos, ao mesmo tempo.
"Manobra evasiva." respondeu David, com uma piscada de olho e um sorriso maroto no rosto.